Mateus 16:18 diz: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja". Há um jogo de palavras entre "Pedro" e "pedra" nesse versículo. Pétros (grego koiné) é nome próprio, masculino, que significa "pedra pequena" ou "pedregulho". Pétra (grego koiné) é feminino, que significa "rocha maciça" ou "pedra fundamental".
Na estrutura do texto, Jesus faz uma distinção entre Pedro (Pétros) e a "rocha" (pétra) sobre a qual edificaria Sua Igreja. Isso sugere que a rocha não é Pedro em si, mas a confissão de fé que Pedro acabara de fazer no versículo anterior: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (Mateus 16:16). Jesus indica que a confissão de Pedro é a base da Igreja, não Pedro como pessoa. Portanto, no contexto de Mateus 16:13-20, Jesus pergunta aos discípulos quem as pessoas dizem que Ele é, e Pedro responde: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (v.16). Essa confissão de fé é o foco central do diálogo. O foco do diálogo é sobre quem Jesus é, não sobre Pedro.
Dependendo da tradução da Palavra, Jesus é chamado de a "pedra angular" em passagens como Efésios 2:20 e 1 Pedro 2:4-8, mostrando que Ele é o verdadeiro fundamento da Igreja. Outros apóstolos, como Paulo, nunca mencionam Pedro como o fundamento, mas sim Jesus. Em 1 Coríntios 3:11, Paulo afirma: "Pois ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo". Isso confirma que Jesus é o verdadeiro fundamento da Igreja. Em Efésios 2:20 que citei anteriormente, Paulo escreve: "Edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo Jesus Cristo como pedra angular".
Aqui, os apóstolos (incluindo Pedro) são descritos como parte do fundamento, mas Cristo é a pedra angular, o centro de tudo. Os próprios Pais da Igreja também apontam Cristo como o fundamento da Igreja: Agostinho de Hipona (Sermão 26) diz: "Sobre esta pedra que confessaste, edificarei a minha Igreja. Pois a pedra era Cristo, e Pedro apenas confessava a pedra". Agostinho claramente identifica a "pedra" como Cristo, e não Pedro.
Orígenes (Comentário ao Evangelho de Mateus, Livro XII, 10) diz: "Se pensamos que a Igreja foi edificada apenas sobre Pedro, que significado terá as palavras ditas por Paulo sobre todos os apóstolos: 'Vós sois o templo de Deus'?". Orígenes destaca que a Igreja é edificada sobre todos os apóstolos e, principalmente, sobre Cristo.
Agora vou te explicar como surgiu o papado. No início, o termo "papa" ("pai") era usado de maneira informal para bispos em geral, não exclusivamente para o bispo de Roma. Os bispos de Roma eram líderes da comunidade cristã na cidade de Roma, mas não possuíam autoridade sobre outras igrejas. Essa crença de que Pedro foi o primeiro bispo de Roma é uma tradição posterior. Após o Édito de Milão, que legalizou o cristianismo, a Igreja começou a se organizar institucionalmente. O bispo de Roma ganhou prestígio devido à importância da cidade de Roma como antiga capital do Império.
O bispo de Roma começou a ser visto como tendo um papel de honra entre os bispos, devido à tradição de Pedro e Paulo terem sido martirizados em Roma. No entanto, não havia ainda um papado como autoridade central. Leão Magno foi o primeiro bispo de Roma a afirmar claramente uma autoridade superior. Ele usou Mateus 16:18 para sustentar que o bispo de Roma era o sucessor de Pedro, argumentando que ele detinha a "cátedra de Pedro". O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) reconheceu a importância de Roma, mas também afirmou a primazia do bispo de Constantinopla, mostrando que o papado ainda não era universalmente aceito.
No século VI, Gregório Magno foi o primeiro a consolidar o título de Papa exclusivamente para o bispo de Roma. Ele reforçou o papel pastoral e administrativo do papado, mas ainda não tinha poder político universal. No século VIII, Pepino, o Breve, rei dos francos, concedeu territórios ao Papa, criando os Estados Papais. Isso fez do papado não apenas uma autoridade religiosa, mas também política. Aliás, um documento forjado do século VIII (mais tarde desmascarado como falso) foi usado para justificar o poder temporal do Papa, afirmando que Constantino teria transferido autoridade sobre o Ocidente ao Papa.
No século XI, o Papa Gregório VII (1073–1085) reforçou a autoridade papal, declarando que o Papa tinha autoridade absoluta sobre a Igreja e até sobre reis. Isso marcou o início do papado como conhecemos hoje, com supremacia universal. Tem até o Dictatus Papae, um documento atribuído a Gregório VII onde listava as prerrogativas do Papa, incluindo o direito de depor imperadores.
No século XIII, Inocêncio III afirmou que o Papa era o "vigário de Cristo" e tinha supremacia não apenas sobre a Igreja, mas também sobre governantes seculares. O papado atingiu o auge de sua influência política e espiritual, intervindo em questões seculares e organizando cruzadas. No século XIX, o Concílio Vaticano I proclamou o dogma da infalibilidade papal, declarando que o Papa, ao falar ex cathedra sobre fé e moral, é preservado de erro.
O título de Papa começou a ser usado de forma geral no século IV para se referir a bispos, especialmente como um termo de respeito e carinho. Pedro nem mais vivo era quando esse título nasceu. O título no início nem exclusivo de Roma era, somente no século VI, durante o pontificado de Gregório I, o título foi reservado exclusivamente ao bispo de Roma. Foi a partir daí que o termo começou a adquirir o significado de líder supremo da Igreja Católica, embora a autoridade universal papal só tenha se consolidado plenamente no século XI com a Reforma Gregoriana.
O título evoluiu para algo muito diferente do que existia no primeiro século. Pedro nunca foi chamado de papa nem exerceu supremacia sobre os outros apóstolos. Pedro como o primeiro papa é uma construção posterior para reforçar a autoridade do bispo de Roma.